segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O ANJO EMBRIAGADO

Ruy Castro demonstra que foi o alcoolismo e não a ingenuidade que destruiu a vida de Mané Garrincha



MAURICIO STYCER
Da Reportagem Local
22/10/1995
A OBRA
Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha, de Ruy Castro. 536 págs. Companhia das Letras (r. Tupi, 522, CEP 01233-000, São Paulo, tel. 011/826-1822). À venda a partir do dia 26. R$ 31,00 

LANÇAMENTO
O livro será lançado, em São Paulo, no bar Nabuco (praça Vilaboim, 59), no dia 8 de novembro, a partir das 20h
 

O jornalista Ruy Castro diz que o objetivo de uma biografia é revelar o ser humano para quem se habituou a só ver o herói e mostrar o herói para quem só teve a chance de conhecer o ser humano. 
Ao final de ``Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha´´, o leitor verá que Ruy Castro alcançou a meta pela terceira vez. 
Como já havia feito com João Gilberto e companhia, em ``Chega de Saudade´´ (1990), e Nelson Rodrigues, em ``Anjo Pornográfico´´ (1993), o jornalista faz aqui um retrato eminentemente jornalístico da vida e da obra de Garrincha. 
Isso significa dizer que se trata de um relato repleto de fatos e minguado de adjetivos. Impressiona tanto pelos detalhes que permitem visualizar o esplendor do jogador quanto pelos pormenores sobre a decadência física do ser humano, que um biógrafo-fã poderia ter achado mais cômodo não descrever de forma tão rica. 
Ao final das 536 páginas de ``Estrela Solitária´´, o leitor não terá dificuldade para entender, primeiro, por que ainda há quem sustente que Garrincha foi melhor jogador até do que Pelé. Depois, compreenderá por que e como se processou a vertiginosa decadência física do homem -incapaz, já aos 32 anos, de passar um dia sem beber cachaça ou batida de coco. 
Para quem gosta de futebol, o maior prazer que o livro oferece é o de acompanhar os primeiros dez anos da carreira do jogador. 
Antes disso, Ruy Castro oferece um saboroso painel da infância e da adolescência de Garrincha em Pau Grande, distrito de Magé (RJ), uma cidadezinha econômica e culturalmente influenciada pelos empresários ingleses da América Fabril, uma indústria têxtil instalada ali desde o início do século. 
Nascido com as pernas tortas, em arco, no dia 28 de outubro de 1933, Manuel dos Santos é filho de um cafuzo (mestiço de negro com índio) e de uma mulata. 
Desde os seus quatro anos, uma irmã nota que ele é pequeno como uma garrincha, um passarinho bobo, marrom, com o dorso listrado. 
Destaca-se na infância e adolescência como excelente caçador de pássaros, sedutor de meninas (iniciou-se sexualmente com uma cabra, diga-se) e jogador de futebol. 
Por causa desta sua terceira habilidade, em 1950, aos 17 anos, Garrincha começa a viajar de Pau Grande ao Rio (então Guanabara). 
Só para registro do torcedor, Vasco, São Cristovão e Fluminense são os clubes que não enxergam talento algum em Garrincha e o devolvem a Pau Grande sem dar chances ao tímido ponteiro de pernas tortas de mostrar o seu talento. 
Em 10 de setembro de 1953, dia do primeiro treino de Garrincha entre os jogadores profissionais do Botafogo, começa a história. E, junto com ela, a criação do mito e das lendas sobre o mito. 
Ruy Castro dedica-se a partir desse ponto a mostrar o que há de verdadeiro e de folclore em algumas das melhores histórias sobre o jogador. São casos, escreve, que ajudaram a criar ``o mito de um gênio infantil e quase debilóide, que não fazia justiça a Garrincha´´. 
Veja algumas dessas lendas: 
Primeiro treino - Sempre se disse que o treinador do Botafogo, Gentil Cardoso, após ver as pernas tortas de Garrincha, comentou: ``Aqui dá de tudo, até aleijado´´. 
Ruy Castro garante que é mentira, mas confirma que, na primeira bola que recebe no treino, aos 10 minutos, Garrincha dribla duas vezes Nilton Santos, então já um jogador consagrado. Na jogada seguinte, Garrincha passa a bola por baixo das pernas de Nilton Santos. 
O rádio dinamarquês - Numa excursão à Europa, em 1955, Garrincha compra um rádio e o revende a um colega, por uma mixaria, após ser informado que seria besteira levá-lo ao Brasil porque não entenderia a língua que o aparelho estaria falando. 
Ruy assegura que quem comprou o rádio foi o ponta-esquerda reserva do Botafogo, Hélio ``Boca de Sandália´´, e que quem aplicou a piada foi Garrincha. 
João - Para Garrincha, não faz diferença quem é escalado para marcá-lo. Ele chama todos os seus marcadores de ``João´´. 
Uma das lendas mais fortes sobre Garrincha, teria sido inventada, assim como outras, pelo jornalista Sandro Moreyra, amigo do jogador, para ``realçar a sua simplicidade´´, escreve Ruy. 
Reunião na Suécia - Inconformados com o fato de Garrincha ficar na reserva nos dois primeiros jogos do Brasil na Copa da Suécia, em 1958, Didi, Nilton Santos e Bellini exigem a escalação do jogador numa reunião com o técnico Feola e o chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho. 
Ruy Castro, em sua primorosa reconstituição da Copa de 58, jura que jamais houve essa reunião, embora os jogadores quisessem muito a escalação de Garrincha -o que acabou ocorrendo. 
Mas nem todo o folclore em torno de Garrincha é suspeito. Ruy Castro dá como verdadeiras inúmeras histórias deliciosas que se conhece sobre o jogador. A saber:
Cadeira - Na tentativa de ensinar Garrincha a driblar menos e passar mais a bola, o técnico do Botafogo Zezé Moreira coloca uma cadeira na ponta da grande área e diz: ``Garrincha, venha com a bola, passe pela cadeira e chute para dentro da área´´. Garrincha vem com a bola e a enfia entre as pernas da cadeira, ``driblando-a´´. 
Olé - O Botafogo joga no México, em 1958, contra o River Plate, base da seleção argentina. A cada drible de Garrincha no lateral Vairo, os torcedores gritam ``olé!´´, como se estivessem numa tourada. Nasce aí o grito de ``olé´´ nos estádios de futebol. 
Expulsão - Num jogo contra o América do Rio, em 1962, vencido pelo Botafogo por 4 a 1, Garrincha foi ameaçado de expulsão pelo árbitro Amílcar Ferreira por driblar demais o lateral Ivan. 
Ao final de 1962, Garrincha contabiliza, entre outras conquistas, dois títulos mundiais pela seleção brasileira e três títulos de campeão carioca pelo Botafogo. 
Nesse ano marcante, em que começa um romance com a cantora Elza Soares, Garrincha já soma sete filhas com sua mulher, Nair, uma menina e um menino com Iraci, sua amante oficial, e um filho sueco, concebido numa noite de junho de 1959, durante uma viagem do Botafogo. 
Além destes, Garrincha ainda teve uma oitava filha com Nair, um filho com Elza e uma filha com Vanderléa, sua última mulher, totalizando 13 herdeiros. 
Dos três filhos homens de Garrincha, só Ulf Lindberg, o sueco, vive. Garrinchinha (filho de Elza) e Nenem (de Iraci) morreram em acidentes de automóveis. 
Entre 1963, quando o seu futebol começa a sofrer por causa de uma artrose no joelho, e 1983, quando morre em consequência do alcoolismo, Garrincha enfrenta uma série de episódios trágicos, que Ruy Castro quase sempre associa à compulsão pela bebida. 
Duas tentativas de suicídio, três acidentes de automóvel, num dos quais a mãe de Elza Soares morreu, dezenas de internações por alcoolismo: o calvário de Garrincha, frisa seu biógrafo, se deve ao álcool e não, como se convencionou dizer, aos dirigentes esportivos que o enganaram, aos contratos em branco que assinou, aos amigos que o abandonaram. 
Ruy Castro mostra de forma exaustiva que Garrincha não foi mais prejudicado em termos financeiros do que outros jogadores de sua geração. 
Não foi o único a assinar contratos em branco (Nilton Santos, por exemplo, também fazia isso). E nunca deixou de contar com a ajuda de inúmeros amigos e de várias entidades oficiais, que o ampararam financeiramente até a morte. 
A dificuldade, no caso da vida e da obra de Garrincha, ao final da leitura dessa odisséia, é saber o que impressiona mais, se a sua capacidade de driblar zagueiros ou se a sua incapacidade de parar de beber. ``Não é o autor que escolhe o caminho que o personagem vai tomar´´, adverte Ruy Castro. 



Autor fez mais de 500 entrevistas para o livro



Da Reportagem Local
22/10/1995
Aviso de Ruy Castro a editores e leitores: ``Até o ano 2001 não quero me meter em outra biografia. É muito cansativo´´.
Para concluir, em ``Chega de Saudade´´, que o gato de João Gilberto não se suicidou de tanto ouvir o músico tocar os mesmos acordes, entre outras lendas, Ruy Castro entrevistou 104 pessoas.
Para contar, em ``Anjo Pornográfico´´, como Nelson Rodrigues descobriu que só as mulheres normais gostam de apanhar, entre outras, Ruy ouviu 125 pessoas.
Dessa vez, para comprovar, entre outras coisas, que Garrincha nasceu no dia 28 de outubro, dez dias depois do que registra a sua certidão de nascimento, o jornalista entrevistou 170 pessoas.
Como conversou mais de uma vez com quase todas, Ruy afirma ter feito mais de 500 entrevistas para compor o perfil de Garrincha.
``Quando estou fazendo uma biografia, assumo o compromisso de todo dia aprender duas ou três coisas novas sobre o personagem. Isso é muito estafante´´, diz Ruy, explicando por que não pretende escrever outra biografia tão cedo.
O jornalista passou dois anos e meio envolvido na realização de ``Estrela Solitária´´. Nos primeiros três meses, leu todas as notícias sobre Garrincha guardadas em arquivos de jornais e revistas.
Arquivou centenas de nomes que apareciam, mesmo que só uma vez, na vida de Garrincha.
Nesse momento, Ruy se considerou pronto para começar a fazer entrevistas ``e reagir a qualquer coisa que não soubesse´´.
O biógrafo adota como norma sempre anotar um nome citado que não conhece. ``Daqui a seis meses, alguém vai citar esse nome de novo e já vou saber do que se trata.´´
Ruy também tem o hábito de jamais gravar entrevistas. ``Os melhores entrevistados são normalmente os coadjuvantes da história, as pessoas que estão nos bastidores. E essas pessoas, que não têm o hábito de dar entrevistas, se inibem diante do gravador.´´
Ruy começou sua pesquisa pelos jogadores contemporâneos de Garrincha no Botafogo. Levou seis meses até achar Araty, o jogador que descobriu Garrincha num campo de pelada em Pau Grande.
Segundo Ruy, diante das lembranças, a primeira reação de todos os que conviveram com Garrincha era muito parecida ao mito que se construiu em torno do jogador: ``Coitado, era como um passarinho. Morreu esquecido´´.
O jornalista esperou um ano para procurar Elza Soares, que conviveu 15 anos com Garrincha. ``Não queria chegar despreparado, mas mesmo assim ela não cansou de me surpreender.´´
Ao final, entrevistou Elza pessoalmente seis vezes e teve incontáveis conversas com ela por telefone -a certa altura do livro, falava com a cantora diariamente.
Nem todas as informações puderam ser totalmente confirmadas. Ao descrever o apetite sexual de Garrincha, Ruy Castro deixou escapar alguma empolgação e escreveu, com exagero, que o ``bráulio´´ do jogador media por volta de 25 centímetros.
A média do brasileiro é de 14 centímetros e os urologistas consideram casos raros os pênis de 21 centímetros. ``Chegaram a me falar em 28, mas devia ter perguntado a um médico´´, admite Ruy.
Irresistível para quem torce pelo Botafogo, a biografia de Garrincha deve agradar a outros torcedores.
Ao descrever a arrasadora estréia de Garrincha na Copa de 58, contra a Rússia, Ruy Castro, torcedor do Flamengo, escreve: ``A partir daquele dia, deixaram de existir botafoguenses, tricolores, rubro-negros, gremistas ou corintianos puros. Todos passariam a ser Garrincha, mesmo quando ele jogasse contra seus clubes´´.(MSy) 

domingo, 25 de setembro de 2011

Entorno do Mané Garrincha servirá de modelo a demais arenas da Copa

Projeto do DF para abrigar patrocinadores da Fifa deve orientar as cidades-sede



Com 200 mil m2, entorno do Mané Garrincha é referência para Copa (crédito: Castro Mello Arquitetos/Div.)
Tamanho da letra
 
Da redação - São Paulo
postado em 23/09/2011 17:06 h
atualizado em 23/09/2011 17:16 h
O projeto do novo Mané Garrincha foi eleito pelo Comitê Organizador Local (COL) da Copa como modelo para orientar a instalação de estruturas temporárias no entorno das arenas do Mundial.

Com 200 mil m2 de área livre nos arredores, o futuro estádio brasiliense tem espaço de sobra para a instalação do centro de mídia, da área de exposição comercial e do espaço de hospitalidade da Fifa. No total, as três estruturas devem ocupar em torno de 120 mil m2.

A construção de acessos e de instalações de saúde e segurança no entorno do Mané Garrincha também serão usados como referência.

A diretriz do COL foi passada durante a “Visita de Monitoramento de Estádios”, evento na capital federal que começou ontem e termina nesta sexta-feira (23). Além de técnicos do comitê, representantes da Fifa também participaram da reunião.
O projeto do novo Mané Garrincha foi elaborado pelo escritório Castro Mello Arquitetos. Segundo o governo distrital, as obras orçadas em R$ 745,3 milhões avançaram 38%.

Fifa e COL já passaram por Rio de Janeiro e Belo Horizonte para monitorar as obras dos estádios. Na sequência, desembarcam em Salvador, Recife e Fortaleza.




segunda-feira, 1 de novembro de 2010


Garrincha e Elza Soares:Paixão, Futebol e Música, ao extremo
junho 25, 2009
tags: , , ,
por Cristiane Serra

1976- Elza Soares tem um filho com Garrincha, e volta às rádios com "Malandro"
Há vários casos amorosos entre jogadores de futebol com artistas da música. Mas, nenhum foi tão intenso tanto o romance entre Elza Soares e Garrincha. Nada mais justo, então, dedicar um post exclusivo para o casal.
Elza começava a brilhar na música brasileira com o sucesso estrondoso de “Se acaso você chegasse” , samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins. Garrincha estava no auge de sua carreira no Botafogo e titular incontestável na Seleção. E foi numa apresentação da cantora para a Seleção, quando a delegação se preparava para a Copa do Mundo de 1962 que eles se conheceram.
Ela também viajou para o Chile, onde foi disputado o Mundial. Enquanto o gênio das pernas tortas ganhava o bicampeonato praticamente sozinho, após a contusão de Pelé na segunda partida do Brasil, a cantora encantava os convidados de um festival de música organizado paralelamente ao evento esportivo. Começava ali o conturbado relacionamento dos dois, recheado de altos e baixos na carreira de ambos. Nos 16 anos que ficaram juntos, Elza acompanhou as glórias e também a decadência de Garrincha.
A polêmica relação com o jogador virou repertório da cantora. De acordo com Beto Xavier, no livro O Futebol no País da Música, da Panda Books – já citado num post anterior-, Elza gravou duas músicas que de certa forma contam sua trajetória amorosa: Eu sou a outra, de Ricardo Galeno, e Amor Impossível, de João Roberto Kelly. O craque, também, também relevou seu lado musical, Elza gravou dois sambas escritos por Mané Garrincha: Receita de balanço e Pé redondo. Beto Xavier traz, em sua obra, a letra do primeiro samba feito pelo jogador:
“Receita de balanço é de fato um belo samba. Simples e dinanmico, que faz justiça ao título:
Vamos balançar
Cantando
Vamos balançar
Sambando
Vamos Balançar
E deixando a tristeza da vida pra lá” (p.156)
A cantora pagou um alto preço por seu amor a Garrincha: a vendagem de seus discos caiu drasticamente, shows eram cancelados por questões de segurança, ninguém a contratava. Além disso, o Anjo das Pernas Tortas (como foi chamado por Vinícius de Moraes) enfrentou as ameaças por parte do Botafogo que não aceitava seu relacionamento e muitos problemas com dinheiro, durante as várias tentativas de retornar ao seu melhor futebol.O casal tinha uma incrível facilidade para ganhar e perder dinheiro. Compraram várias casas e as perderam pagando dívidas. Todo o dinheiro arrecadado no jogo da Gratidão (o jogo de despedida de Garrincha realizado no dia 19 de dezembro de 1973), eles perderam. Tiveram um filho: Manuel Garrincha dos Santos Júnior. Mas nem o bebê pode mantê-los juntos. No dia 30 de agosto de 1977, transtornado pela bebida, Garrincha agrediu Elza e ela o abandonou. Essa não era a primeira briga dos dois por causa do álcool, mas seria a última.
Garrincha, o craque das pernas tortas, que passou por zagueiros do mundo inteiro, não conseguiu driblar o vício da bebida. E em 1983, o jogador morreu em decorrência do alcoolismo.
Fonte: XAVIER, Beto. Futebol no páis da música. São Paulo: Panda Books, 2009.

domingo, 15 de agosto de 2010

mais historias - A GRIPE DO MÁRIO



Conversávamos, Mané e eu, numa noite fria, chuvosa, de um mês de julho, no jardim da bela casa no Jardim Botânico. Os assuntos eram os mais variados sempre que tínhamos chance de dialogar. Confesso que algumas de suas palavras eu não conseguia captar. Não porque fossem inaudíveis, mas porque muitas das vezes ficava emocionado por estar diante de uma personalidade do mundo, um homem venerado e idolatrado por sua genialidade e alegria, transmitidas aos olhos de todos quando exibia o seu futebol.
Estava deslumbrado, feliz pelo privilégio inigualável de poder estar frente a frente com Garrincha. De repente, chegou Mário, um amigo, morador do bairro, tosse incessante. Trocou algumas palavras com Elza na sala e se aproximou, quase que se arrastando, até perto de nós dois: "Boa-noite, seu Mané! Oi, Gersinho! Boa-noite!
Garrincha não se conteve:
"O que houve, Mário? Todo agasalhado... Está doente?"
"Estou gripado, seu Mané. Dói tudo! Ponha a mão na minha testa, veja como está quente."
Eu também botei a mão na testa de Mário e o amigo estava mesmo com febre altíssima, afônico, queixando-se de dores pelo corpo. Então, perguntei:
"Já tomou algum remédio?"
"Pois é! Só por isso saí de casa. Para pedi a tia Elza um compnmido. Estou sem um tostão."
Mané tirou uma nota de cem cruzeiros da carteira e a ofereceu ao debilitado Mário.
"Cem pratas! Quer?"
"Se quero? Com essa grana vou comprar um hospital..."
Ao esticar a mão para pegar a nota, Mané desafiou:
"Só ganha a nota se pular na piscina. Agora."
"Se eu cair na piscina? Que é isso, Mané?! Com essa gripe, essa febre... Se fizer uma loucura dessas vou morrer na hora!"
"Certo! Então, nada de grana.
Pegou a nota e a recolocou na carteira. Mário reagiu:
"Também não é assim seu Mané! Preciso de tempo para pensar. Tenho de tomar o remédio."
Tentei demover Mané da idéia da piscina. Caía uma chuva fina, dez horas da noite, Mário com febre altíssima...
"Cale a boca, Gerson!"
Mário estava desesperado. Mesmo ciente do seu problema com a gripe, arriscou:
"Se eu cair na água você me dá essa grana, Garrincha?"
Mané retirou a nota do bolso e a balançou, provocando Mário:
"Será toda sua. Mas ande logo. Se a Crioula chegar, não vai deixar você mergulhar. E ai... Perdeu a grana."
O jardim da casa era belíssimo. Um gramado bem cuidado cercava a piscina. Enquanto caminhava até a beira dela, Mário pensava, espirrava e tossia ao mesmo tempo. Olhou fixamente para a nota que Mané balançava. Hesitou. Ao ver que Mané não parava de balançar a nota que o ajudaria a resolver o problema financeiro, de imediato começou a tirar a roupa. Mané gritou:
"Nada disso! Tem de pular de roupa e tudo."
Mário, lentamente, vestiu a peça que havia tirado e num ato tresloucado mergulhou.
Elza chegou, viu o pobre rapaz dentro d'água e esbravejou:
"Você está maluco? Com essa febre, gripado e pulando na piscina? O que houve, Neném?" Era assim que Elza chamava Mené. E exigiu explicações.
Mané, matreiramente, se saiu com essa: "Sei lá o que aconteceu! Ele chegou aqui, deu boa-noite, dizendo que queria tomar banho de piscina, e mergulhou."
Logo depois. Mané se retirou para o quarto, antes que Elza lhe desse um puxão de orelhas.
Mário saíu da água, foi imediatamente coberto com uma toalha levada por uma empregada. Olhou para mesa e só viu a mim.
"Onde está o seu Mané?"
"Foi dormir", respondeu Elza, sem saber do desafio.
"Não deixou nada para mim?"
Mário ficou sem saber o que fazer. Sentiu que fora enganado. Coisas de Garrincha.
O amigo Mário dormiu no quarto comigo e meus irmãos, tossindo sem parar. A febre o fazia delirar. Balbuciava palavrões, seguidos do nome Garrincha, que naquela noite se transformara na obsessão inconsciente de sua febre. No dia seguinte, Mané o chamou e lhe deu o dinheiro, a desejada nota de cem cruzeiros.
Fiquei pensando: por que aquela brincadeira perigosa com o rapaz? E se como conseqüência da exigência de Mané ele morresse? Procurei Mané, pedi explicações sobre o motivo da brincadeira e ele me disse que um bom banho frio baixa qualquer febre. Tudo bem, mas deixo aqui uma reflexão: você deve avaliar seus atos, pois nem sempre dinheiro é a melhor solução.

Historias - A DENTADA



A tarde de uma quinta-feira, dia da pelada semanal, estava chuvosa. Era uma pelada muito concorrida, disputada no campo circundado por uma vala negra e que ficava atrás de nossa casa na Barra da Tijuca.
Nesse dia, a não ser que caísse um dilúvio, a pelada tinha de ser realizada. Mais uma vez, aparecera gente de fora e conhecidos querendo vaga num dos times ou simplesmente para ter o privilégio de ver Garrincha e alguns de seus convidados famosos, como Oliveira (Au) e Mário Tilico e Vermelho (ambos do Bangu), entre outros, darem show sem a responsabilidade profissional.
Geralmente, era pai contra fllhos, ou seja, Mané contra Carlinhos, Gfison e eu. Não preciso dF zer que éramos fregueses de caderno do time escolhido por Mané, mas mantínhamos nossa esperança diante dos craques e tentávamos, no grito, vencer. Vencemos algumas vezes; as que perdemos, os culpados foram os árbitros, que torciam por Mané.
Antes de seguirmos para o campo, fizemos um rápido lanche. Quando digo rápido, refiro-me a Carlinhos, Mané e eu. Gílson permaneceu, como de hábito, à mesa, degustando lenta-mente pães, queijos, presunto, bolo, tudo muito bem acompanhado de um copo duplo de café com leite. Por isso, tinha uma obesidade, combatida, inutilmente, por Mané e Elza.
Mas meu irmão nem ligava, ele gostava de comer e não escondia isso. Dificilmente poderia fazer regime, diante da fartura de guloseimas na casa. Fato que o impedia de atender aos apelos dos pais para emagrecer.
Ainda batíamos bola no campo, enquanto os capitães escolhiam os times no par-ou-ímpar, e Gílson chegou, mastigando um dos sanduíches, arrastando seus quilos e requisitando a sua vaga. Confesso que a maioria não gostava de jogar do seu lado, pois era o ponto fraco do time. Mas a escalação era sempre assegurada por Mané, que gostava do menino e exigia que jogasse.
Nesse dia, porém, Mané se arrependeu de defender sua participação na pelada. GiIson jogou na lateral. E como todos sabiam ser ali o ponto fraco, os melhores jogadores do adversário tramavam por seu lado, para desespero dos companheiros do time de Gílson.
Mané, que gostava de brincar com zagueiros profissionais, divertia-se ao fazer Gílson de João e resolveu jogar como ponta-direita, sua verdadeira posição. Foi um passeio. Ele dribiava meu irmão como se não houvesse ninguém a marcá-lo. Então, Carilnhos, irritado, ao término do primeiro tempo mexeu com os brios do irmão mais novo.
Chamou-o no canto, deu-lhe um puxão de orelhas, exigiu que não se deixasse ser ridicularizado diante de tanta gente e que marcasse Mané com mais dureza, evitando de qualquer forma a progressão das jogadas por seu lado. Como se isso fosse fácil ou possível.
Gílson encheu-se de orgulho, dizendo que na segunda etapa sena outro, que não seria feito de bobo. Prometeu segurar o ponta de qualquer jeito. Não acreditamos. Mané jogava como queria, como gostava, brincava com qualquer um que tentasse marcá-lo.
Mas algo inusitado aconteceu. No primeiro lance, Mané partiu despreocupadamente para cima de Gílson, que se agarrou ao seu corpo e o jogou ao chão. No segundo lance, Gílson, segurou com firmeza sua camisa e para não tê-la rasgada Mané parou. E mais uma vez Mané não conseguiu driblá-lo, para espanto e surpresa de todos, que, mesmo de maneira irregular, viram que meu gordinho irmão estava conseguindo o seu objetivo.
Nos dois lances seguintes, Gílson segurou a camisa de Mané, que não prosseguiu a jogada. Então, Mané teve a idéia de tirá-la Gílson, não tendo onde agarrar, passou a se pendurar no seu calção. Agora Mané não corria o risco de perder a camisa, mas sim de ficar nu. E foi parado. Melhor dizendo, anulado.
Mas Gílson começou a sentir cansaço. Conseqüência, claro, da obsedidade, das muitas horas que passava todos os dias à mesa. Para ser mais claro, conseqüência do pequeno (?) lanche que fizera pouco antes da pelada que não podia deixar de ser disputada naquela quinta-feira chuvosa. Mané, então, sorrindo, driblou Gílson seguidas vezes.
Num dos lances, depois de mais uma seqüência de dribles, Gílson, suando muito, boca aberta, implorando por ar, agarrou-se às costas de Mané. De nada adiantou. Gílson foi sendo arrastado por Mané. A cada passo do ponta-direita, Gílson mais escorregava. E escorregou até chegar à altura do calção.
Desesperado, imaginando que seu ato fosse uma forma de vingança contra Mané, Gílson não resistiu: deu uma dentada na bunda de Mané. Sem resistir à dor, Mané gritou. E para alívio de Gílson, abandonou a pelada.

VOLTAR

27 anos da morte do craque Garrincha

Garrincha

”A carreira começou a entrar em decadência em 1966, com a saída do Botafogo."

O dia 20 de janeiro ganhou uma conotação especial e pêsames no futebol mundial há 25 anos. Neste dia, em 1983, Manoel dos Santos, o Mané Garrincha, falecia por infecção generalizada em uma situação muito diferente da saudação que recebia de torcedores do auge de seu desempenho dentro de campo: era vítima do alcoolismo, no esquecimento popular.

Nascido em 18 de outubro de 1933 na cidade de Pau Grande - distrito de Magé, no Rio de Janeiro -, Garrincha não tinha o físico considerado ideal para o futebol.

No entanto, a distrofia física fez com que as suas pernas tortas entrassem para a história do esporte como as responsáveis por dribles memoráveis.

Vivendo na época dos pontas, Garrincha cansou de levar a bola para a lateral e entortar quem se atrevesse a interceptá-lo. Acostumado a dar fintas em quem estivesse a sua frente, o craque chamava todos os seus marcadores de “João”.

O caminho do Mané nos campos começou no clube em que mais se destacou na carreira: o Botafogo, em 1953. Logo em sua estréia, fez o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Avelar (MG).

Em pouco tempo, o camisa 7 já estava desfilando no Maracanã, o principal palco de suas apresentações. Ao todo, foram 608 jogos e 245 gols com a camisa alvinegra, conquistando três Campeonatos Cariocas, em 57, 61 e 62, e dois Torneios Rio-São Paulo, em 62 e 64.

E Garrincha também cravou seu nome na seleção brasileira. Mesmo reprovado nos testes psicotécnicos, seguiu para a Suécia para conquistar a Copa do Mundo de 1958 ao lado de outros gênios como Pelé e Didi. Repetiu o feito em 1962, no Chile, mas desta vez como o principal nome do time canarinho depois da contusão de Pelé. Além do bicampeonato mundial, o jogador ainda ostenta um impressionante desempenho defendendo o país: perdeu apenas uma das 60 partidas que disputou.

A carreira começou a entrar em decadência em 1966, com a saída do Botafogo. As passagens por Corinthians, Flamengo, Olaria, Bangu, Portuguesa-RJ e Atlético Junior da Colômbia não tiveram o mesmo brilho, e Garrincha optou por encerrar sua épica e inesquecível trajetória no futebol. O alcoolismo vencia a primeira batalha.

E aos 49 anos, o craque falecia, deixando 13 filhos em três casamentos, e milhares de outros órfãos do seu brilhante futebol ao redor do mundo. Depois da morte, Garrincha ganhou uma estátua, atualmente localizada no Maracanã.

Porém, com o intuito de fugir de cusparadas, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), administradora do Maracanã, autorizou a transferência do monumento para o Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, que está sob a posse do Botafogo.