domingo, 15 de agosto de 2010
mais historias - A GRIPE DO MÁRIO
Conversávamos, Mané e eu, numa noite fria, chuvosa, de um mês de julho, no jardim da bela casa no Jardim Botânico. Os assuntos eram os mais variados sempre que tínhamos chance de dialogar. Confesso que algumas de suas palavras eu não conseguia captar. Não porque fossem inaudíveis, mas porque muitas das vezes ficava emocionado por estar diante de uma personalidade do mundo, um homem venerado e idolatrado por sua genialidade e alegria, transmitidas aos olhos de todos quando exibia o seu futebol.
Estava deslumbrado, feliz pelo privilégio inigualável de poder estar frente a frente com Garrincha. De repente, chegou Mário, um amigo, morador do bairro, tosse incessante. Trocou algumas palavras com Elza na sala e se aproximou, quase que se arrastando, até perto de nós dois: "Boa-noite, seu Mané! Oi, Gersinho! Boa-noite!
Garrincha não se conteve:
"O que houve, Mário? Todo agasalhado... Está doente?"
"Estou gripado, seu Mané. Dói tudo! Ponha a mão na minha testa, veja como está quente."
Eu também botei a mão na testa de Mário e o amigo estava mesmo com febre altíssima, afônico, queixando-se de dores pelo corpo. Então, perguntei:
"Já tomou algum remédio?"
"Pois é! Só por isso saí de casa. Para pedi a tia Elza um compnmido. Estou sem um tostão."
Mané tirou uma nota de cem cruzeiros da carteira e a ofereceu ao debilitado Mário.
"Cem pratas! Quer?"
"Se quero? Com essa grana vou comprar um hospital..."
Ao esticar a mão para pegar a nota, Mané desafiou:
"Só ganha a nota se pular na piscina. Agora."
"Se eu cair na piscina? Que é isso, Mané?! Com essa gripe, essa febre... Se fizer uma loucura dessas vou morrer na hora!"
"Certo! Então, nada de grana.
Pegou a nota e a recolocou na carteira. Mário reagiu:
"Também não é assim seu Mané! Preciso de tempo para pensar. Tenho de tomar o remédio."
Tentei demover Mané da idéia da piscina. Caía uma chuva fina, dez horas da noite, Mário com febre altíssima...
"Cale a boca, Gerson!"
Mário estava desesperado. Mesmo ciente do seu problema com a gripe, arriscou:
"Se eu cair na água você me dá essa grana, Garrincha?"
Mané retirou a nota do bolso e a balançou, provocando Mário:
"Será toda sua. Mas ande logo. Se a Crioula chegar, não vai deixar você mergulhar. E ai... Perdeu a grana."
O jardim da casa era belíssimo. Um gramado bem cuidado cercava a piscina. Enquanto caminhava até a beira dela, Mário pensava, espirrava e tossia ao mesmo tempo. Olhou fixamente para a nota que Mané balançava. Hesitou. Ao ver que Mané não parava de balançar a nota que o ajudaria a resolver o problema financeiro, de imediato começou a tirar a roupa. Mané gritou:
"Nada disso! Tem de pular de roupa e tudo."
Mário, lentamente, vestiu a peça que havia tirado e num ato tresloucado mergulhou.
Elza chegou, viu o pobre rapaz dentro d'água e esbravejou:
"Você está maluco? Com essa febre, gripado e pulando na piscina? O que houve, Neném?" Era assim que Elza chamava Mené. E exigiu explicações.
Mané, matreiramente, se saiu com essa: "Sei lá o que aconteceu! Ele chegou aqui, deu boa-noite, dizendo que queria tomar banho de piscina, e mergulhou."
Logo depois. Mané se retirou para o quarto, antes que Elza lhe desse um puxão de orelhas.
Mário saíu da água, foi imediatamente coberto com uma toalha levada por uma empregada. Olhou para mesa e só viu a mim.
"Onde está o seu Mané?"
"Foi dormir", respondeu Elza, sem saber do desafio.
"Não deixou nada para mim?"
Mário ficou sem saber o que fazer. Sentiu que fora enganado. Coisas de Garrincha.
O amigo Mário dormiu no quarto comigo e meus irmãos, tossindo sem parar. A febre o fazia delirar. Balbuciava palavrões, seguidos do nome Garrincha, que naquela noite se transformara na obsessão inconsciente de sua febre. No dia seguinte, Mané o chamou e lhe deu o dinheiro, a desejada nota de cem cruzeiros.
Fiquei pensando: por que aquela brincadeira perigosa com o rapaz? E se como conseqüência da exigência de Mané ele morresse? Procurei Mané, pedi explicações sobre o motivo da brincadeira e ele me disse que um bom banho frio baixa qualquer febre. Tudo bem, mas deixo aqui uma reflexão: você deve avaliar seus atos, pois nem sempre dinheiro é a melhor solução.
Historias - A DENTADA
A tarde de uma quinta-feira, dia da pelada semanal, estava chuvosa. Era uma pelada muito concorrida, disputada no campo circundado por uma vala negra e que ficava atrás de nossa casa na Barra da Tijuca.
Nesse dia, a não ser que caísse um dilúvio, a pelada tinha de ser realizada. Mais uma vez, aparecera gente de fora e conhecidos querendo vaga num dos times ou simplesmente para ter o privilégio de ver Garrincha e alguns de seus convidados famosos, como Oliveira (Au) e Mário Tilico e Vermelho (ambos do Bangu), entre outros, darem show sem a responsabilidade profissional.
Geralmente, era pai contra fllhos, ou seja, Mané contra Carlinhos, Gfison e eu. Não preciso dF zer que éramos fregueses de caderno do time escolhido por Mané, mas mantínhamos nossa esperança diante dos craques e tentávamos, no grito, vencer. Vencemos algumas vezes; as que perdemos, os culpados foram os árbitros, que torciam por Mané.
Antes de seguirmos para o campo, fizemos um rápido lanche. Quando digo rápido, refiro-me a Carlinhos, Mané e eu. Gílson permaneceu, como de hábito, à mesa, degustando lenta-mente pães, queijos, presunto, bolo, tudo muito bem acompanhado de um copo duplo de café com leite. Por isso, tinha uma obesidade, combatida, inutilmente, por Mané e Elza.
Mas meu irmão nem ligava, ele gostava de comer e não escondia isso. Dificilmente poderia fazer regime, diante da fartura de guloseimas na casa. Fato que o impedia de atender aos apelos dos pais para emagrecer.
Ainda batíamos bola no campo, enquanto os capitães escolhiam os times no par-ou-ímpar, e Gílson chegou, mastigando um dos sanduíches, arrastando seus quilos e requisitando a sua vaga. Confesso que a maioria não gostava de jogar do seu lado, pois era o ponto fraco do time. Mas a escalação era sempre assegurada por Mané, que gostava do menino e exigia que jogasse.
Nesse dia, porém, Mané se arrependeu de defender sua participação na pelada. GiIson jogou na lateral. E como todos sabiam ser ali o ponto fraco, os melhores jogadores do adversário tramavam por seu lado, para desespero dos companheiros do time de Gílson.
Mané, que gostava de brincar com zagueiros profissionais, divertia-se ao fazer Gílson de João e resolveu jogar como ponta-direita, sua verdadeira posição. Foi um passeio. Ele dribiava meu irmão como se não houvesse ninguém a marcá-lo. Então, Carilnhos, irritado, ao término do primeiro tempo mexeu com os brios do irmão mais novo.
Chamou-o no canto, deu-lhe um puxão de orelhas, exigiu que não se deixasse ser ridicularizado diante de tanta gente e que marcasse Mané com mais dureza, evitando de qualquer forma a progressão das jogadas por seu lado. Como se isso fosse fácil ou possível.
Gílson encheu-se de orgulho, dizendo que na segunda etapa sena outro, que não seria feito de bobo. Prometeu segurar o ponta de qualquer jeito. Não acreditamos. Mané jogava como queria, como gostava, brincava com qualquer um que tentasse marcá-lo.
Mas algo inusitado aconteceu. No primeiro lance, Mané partiu despreocupadamente para cima de Gílson, que se agarrou ao seu corpo e o jogou ao chão. No segundo lance, Gílson, segurou com firmeza sua camisa e para não tê-la rasgada Mané parou. E mais uma vez Mané não conseguiu driblá-lo, para espanto e surpresa de todos, que, mesmo de maneira irregular, viram que meu gordinho irmão estava conseguindo o seu objetivo.
Nos dois lances seguintes, Gílson segurou a camisa de Mané, que não prosseguiu a jogada. Então, Mané teve a idéia de tirá-la Gílson, não tendo onde agarrar, passou a se pendurar no seu calção. Agora Mané não corria o risco de perder a camisa, mas sim de ficar nu. E foi parado. Melhor dizendo, anulado.
Mas Gílson começou a sentir cansaço. Conseqüência, claro, da obsedidade, das muitas horas que passava todos os dias à mesa. Para ser mais claro, conseqüência do pequeno (?) lanche que fizera pouco antes da pelada que não podia deixar de ser disputada naquela quinta-feira chuvosa. Mané, então, sorrindo, driblou Gílson seguidas vezes.
Num dos lances, depois de mais uma seqüência de dribles, Gílson, suando muito, boca aberta, implorando por ar, agarrou-se às costas de Mané. De nada adiantou. Gílson foi sendo arrastado por Mané. A cada passo do ponta-direita, Gílson mais escorregava. E escorregou até chegar à altura do calção.
Desesperado, imaginando que seu ato fosse uma forma de vingança contra Mané, Gílson não resistiu: deu uma dentada na bunda de Mané. Sem resistir à dor, Mané gritou. E para alívio de Gílson, abandonou a pelada.
27 anos da morte do craque Garrincha
”A carreira começou a entrar em decadência em 1966, com a saída do Botafogo."
O dia 20 de janeiro ganhou uma conotação especial e pêsames no futebol mundial há 25 anos. Neste dia, em 1983, Manoel dos Santos, o Mané Garrincha, falecia por infecção generalizada em uma situação muito diferente da saudação que recebia de torcedores do auge de seu desempenho dentro de campo: era vítima do alcoolismo, no esquecimento popular.
Nascido em 18 de outubro de 1933 na cidade de Pau Grande - distrito de Magé, no Rio de Janeiro -, Garrincha não tinha o físico considerado ideal para o futebol.
No entanto, a distrofia física fez com que as suas pernas tortas entrassem para a história do esporte como as responsáveis por dribles memoráveis.
Vivendo na época dos pontas, Garrincha cansou de levar a bola para a lateral e entortar quem se atrevesse a interceptá-lo. Acostumado a dar fintas em quem estivesse a sua frente, o craque chamava todos os seus marcadores de “João”.
O caminho do Mané nos campos começou no clube em que mais se destacou na carreira: o Botafogo, em 1953. Logo em sua estréia, fez o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Avelar (MG).
Em pouco tempo, o camisa 7 já estava desfilando no Maracanã, o principal palco de suas apresentações. Ao todo, foram 608 jogos e 245 gols com a camisa alvinegra, conquistando três Campeonatos Cariocas, em 57, 61 e 62, e dois Torneios Rio-São Paulo, em 62 e 64.
E Garrincha também cravou seu nome na seleção brasileira. Mesmo reprovado nos testes psicotécnicos, seguiu para a Suécia para conquistar a Copa do Mundo de 1958 ao lado de outros gênios como Pelé e Didi. Repetiu o feito em 1962, no Chile, mas desta vez como o principal nome do time canarinho depois da contusão de Pelé. Além do bicampeonato mundial, o jogador ainda ostenta um impressionante desempenho defendendo o país: perdeu apenas uma das 60 partidas que disputou.
A carreira começou a entrar em decadência em 1966, com a saída do Botafogo. As passagens por Corinthians, Flamengo, Olaria, Bangu, Portuguesa-RJ e Atlético Junior da Colômbia não tiveram o mesmo brilho, e Garrincha optou por encerrar sua épica e inesquecível trajetória no futebol. O alcoolismo vencia a primeira batalha.
E aos 49 anos, o craque falecia, deixando 13 filhos em três casamentos, e milhares de outros órfãos do seu brilhante futebol ao redor do mundo. Depois da morte, Garrincha ganhou uma estátua, atualmente localizada no Maracanã.
Porém, com o intuito de fugir de cusparadas, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), administradora do Maracanã, autorizou a transferência do monumento para o Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, que está sob a posse do Botafogo.
GARRINCHA O PELE 2

28/10/1933, Pau Grande (RJ)
20/1/1983, Rio de Janeiro (RJ)
Dribles que desnorteavam o adversário eram típicos do estilo de Mané Garrincha |
Manoel Francisco dos Santos, o "Mané", pertencia a uma família pobre de 15 irmãos. O apelido Garrincha veio de um tipo de pássaro, comum na região serrana, que Mané gostava de caçar com seu bodoque.
Na cidade onde nasceu, no Estado do Rio de Janeiro, havia uma fábrica de tecidos de propriedade de um grupo inglês que mantinha um time de futebol amador, o Pau Grande Esporte Clube. Aos 15 anos, Mané começou a trabalhar na fábrica, e não demorou a treinar no time, mas não teve chance de jogar logo porque, além da sua pouca idade, o técnico Carlos Pinto temia expor o garoto aos fortes zagueiros dos times adversários.
Cansado de não ter uma chance de jogar, Mané registrou-se no time Serrano, da cidade vizinha de Petrópolis e jogou durante quase um ano. Depois disso, o técnico Carlos Pinto decidiu dar uma chance ao Mané e, com sua entrada na ponta direita, o time do Pau Grande cresceu.
Depois de algum tempo, Garrincha foi tentar a sorte em algum clube da capital. Procurou o Flamengo, o Fluminense e o Vasco, mas com suas pernas tortas, não lhe deram atenção.
Garrincha ficou desiludido, até o dia que foi convidado para fazer um teste no Botafogo e encantou o técnico Carlos Pinto. Fez parte do melhor time do Botafogo de todos os tempos, que contava com Zagalo, Didi, Amarildo e Nilton Santos, entre outros. Sua melhor jogada era o drible para a direita, o arranque e o cruzamento para a área. Mesmo com uma diferença de 6 cm que separava seus joelhos, sempre levava vantagem sobre o marcador.
Em 1962, quando começou o romance com a cantora Elza Soares, Garrincha já tinha sete filhas com Nair, sua mulher; um casal de filhos com Iraci, sua amante e um filho sueco concebido em junho de 1959. Além destes, teve uma oitava filha com Nair, um filho com Elza e mais uma filha com Vanderléa, sua última mulher, totalizando 13 filhos.
Jogou 60 partidas pela seleção brasileira e encantou a todos em três Copas do Mundo: da Suécia (1958) e do Chile (1962), das quais o Brasil foi campeão, e daInglaterra (1966). Com Garrincha, o Brasil obteve 52 vitórias e sete empates.
No final da carreira, jogou também no Corinthians, no Flamengo, no Olaria e em outros times brasileiros e estrangeiros. Morreu em decorrência da cirrose hepática, em 1983.
Eternamente admirado, foi homenageado com o poema "O Anjo de Pernas Tortas", de Vinicius de Moraes, o documentário "Garrincha, Alegria do Povo", deJoaquim Pedro de Andrade, a biografia "Estrela Solitária", de Ruy Castro, e os versos de Carlos Drummond de Andrade: "Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.(...)".
Entre 1963, quando o seu futebol começa a sofrer por causa de uma artrose no joelho, e 1983, quando morre em conseqüência do alcoolismo, Garrincha enfrenta uma série de episódios trágicos: tentativas de suicídio, acidentes de automóvel e dezenas de internações por alcoolismo.